
Era o terror das alunas da aula de Música e Canto da antiga Escola Normal Modelo, atual Instituto de Educação de Minas Gerais. A professora não pensava duas vezes para reprovar quem desafinava ou não marcava o tempo corretamente nos solfejos. Era temida, mas muito querida, tanto que a sala de música hoje leva seu nome: Maria Amorim Ferrara.
Sua enorme vitalidade e seu espiríto inquieto se expressaram intensamente em seu trabalho de professora. Estudou com Villa-Lobos. Regeu coros, escreveu artigos para jornais sobre música sacra, formou professores, escreveu livros didáticos - Notas de Uma Professora de Música Escola em 1938 e O Ensino do Canto Orfeônico em 1958. Com seu modo peculiar de ser professora, compôs a letra do hino do Instituto de Educação de Minas Gerais, musicou os textos dos livros A Galinha Ruiva e O Livro de Lili usados na alfabetização de crianças das escolas públicas. Elaborou a coletânea Caderno de Canções, contendo hinos e canções para alunos do curso primário da época e o livro Como Brincam as Crianças Mineiras, como o resultado da pesquisa sobre brincadeiras folclóricas. Participou da encenação de peças teatrais musicadas com colegas professoras de artes cênicas. Foi multimídia e transdisciplinar em meados do século passado! Nas "horas vagas", escrevia - publicou o romance Maria dos Anjos em 1946 -, tocava piano, pintava e desenhava, para seu prazer e o nosso.
Dona Maria era minha avó, o futuro no meu passado. Em lugar de computadores e lousas digitais ela usava o piano e as partituras para ensinar. Foi, também, a responsável por minha educação. Com ela aprendi a tocar piano, a falar francês, a escrever. Contou-me da vida dos músicos e dos grandes mestres da pintura. Apresentou-me há quarenta anos Carmina Burana, do alemão Carl Orff, que ela sabia, um dia, faria sucesso. Colocava a minha disposição telas e tintas e me dizia: Pinte! - e minha imaginação se congelava no branco da tela, diferentemente do que acontecia quando me dava o caderninho e me mandava escrever. Adorava quando declarava: Hoje o tema é livre, menina - e me entregava o lápis, borracha, não, para pensar bem antes de escrever. Não me aborrecia quando me devolvia meus escritos com notas e marcas nas vírgulas fora de lugar e o quiser escrito com z. Ela podia. Tinha jeito e resposta para tudo. Sua língua afiada era o máximo!
Em sua homenagem e como forma de reconhecer e agradecer essa vida tão rica, minha irmã, Ana Maria Ferrara, tomou a iniciativa e só descansou, orgulhosa, quando foi colocado em suas mãos o exemplar dos Contos Antigos, escritos por nossa avó nos anos de 1947 a 1949 e publicado pela Editora Mulheres (http://www.editoramulheres.com.br/), que os considera contos eternos, tal qual ensinou o poeta Drummond, conterrâneo da professora Maria: melhor do que sermos modernos é sermos eternos.